Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Não se vê ,não se fala,não se sente mas está sempre presente!

A promoção da pobreza

Para a grande burguesia financeira e a Igreja, cada vez mais interligados nos negócios e nas finanças o “combate à pobreza” constitui um excelente mercado alternativo para os riscos de investimento…

Jorge Messias* - 30.09.07

A pobreza pode transformar-se em riqueza. Não, na riqueza dos pobres mas na maior riqueza dos ricos. Trata-se de uma sensacional descoberta da globalização. Ainda que, no actual mundo capitalista, se viva um curioso dilema entre a proclamada vitória do capital e a eventual bancarrota que se aproxima. O “combate à pobreza” pode constituir, neste estado de coisas, um excelente mercado alternativo para os riscos do investimento. Para se entender este cenário e encontrar-se um base sólida que permita partir para a sua melhor compreensão, basta vasculharmos, na banca e na bolsa, o que lá se diz e se prepara. Para os banqueiros há um movimento irreversível, gerado pela sede do dinheiro e pela ambição do lucro acrescentado que, por irracional que seja, não aceita travões nem voltará atrás.

Há poucos dias, um jornal de Lisboa foi perguntar ao presidente executivo do Deutsch Bank em Portugal, qual era a sua opinião acerca das possibilidades daquela instituição continuar a crescer em tempos de crise, mantendo todavia os seus níveis de qualidade para os produtos oferecidos aos clientes com maior poder financeiro. O banqueiro respondeu assim: “Ganhe em qualquer cenári”, eis o nosso slogan ... Este momento pode ser uma grande oportunidade para o DB em Portugal... quando os mercados estão em queda, os melhores bancos podem mostrar aquilo que valem!” E o “Público”, o jornal em questão, comentava “O Deutsch Bank quer ir às compras“.

E irá, certamente, e não só ele. Uma das normas básicas do capitalismo é “comprar em baixa”.

Este grupo bancário do DB é a maior corporação financeira alemã de investimentos. Sem qualquer surpresa, vamos encontrá-lo ligado às grandes operações dos mercados mundiais, incluindo aquelas que geram os lucros fabulosos da área empresarial eclesiástica e do Opus Dei. Só para se ilustrar esta afirmação basta dizer-se que, no segundo trimestre de 2006, o DB revelou resultados rotineiros de 2,2 mil milhões de “euros” de lucros. E não é que o DB seja diferente dos outros mega grupos das finanças globais. O crescimento brutal das mais-valias e dos capitais privados gera a riqueza e gera a pobreza. Este exemplo do DB pode servir, simplesmente, para apontarmos dois dos principais agentes da fraude que é o “combate à pobreza”: a banca, que explora os pobres para enriquecer os ricos; e a religião que fornece aos criminosos os capuzes e as mascarilhas da Ética com que se disfarçam os banqueiros e elas próprias se disfarçam.

Em Maio deste mesmo ano, Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU, veio a Lisboa, falou aos grandes capitães das finanças portuguesas e lançou-lhes um aviso alarmante:“ Não podemos viver num mundo onde existe pobreza maciça ao lado de grande riqueza e continuarmos à espera de que não haja qualquer mudança“. O grito de alma tinha, evidentemente, uma forte carga de classe. Um rico dizia a outros ricos que é necessário mudar enquanto é tempo. Alertava-os para a urgência em reduzir o fosso entre pobres e ricos, defender ostensivamente os fracos, mitigar as necessidades básicas e dar a ideia de que o capitalismo pode vir a erradicar a pobreza no mundo. Tudo isto, é claro, muito gradualmente e sem que o poder político e económico mude de mãos. Toda a mudança se faz com justa medida. O “combate à pobreza” tem de respeitar as liberdades dos ricos. Kofi Anan, para melhor impressionar os banqueiros, ligou a “pobreza” à “exclusão” e referiu o exemplo chocante dos 130 milhões de crianças que em todo o mundo não podem frequentar as escolas devido à violação política dos direitos humanos.

Temos aqui identificado o terceiro comparsa do “combate à pobreza” - o Estado nas suas diversas versões de soberania nacional ou de parte integrante das estruturas supranacionais do Poder. O Estado que se vende aos que mais possuem. O Estado que promove a pobreza.

O “ combate à pobreza “

A “geografia da fome” atinge todos os povos das nações desenvolvidas ou em vias de desenvolvimento. Se por exemplo, no Darfur, nos campos de refugiados da Palestina e do Líbano ou em vastas regiões de África ou da Índia, milhões de seres humanos morrem de fome, também nos próprios Estados Unidos há mais de 36 milhões de pobres e 47 outros milhões não têm seguro de saúde; nos países da União Europeia, 70 milhões de pessoas estão abaixo da linha de pobreza (60% do rendimento médio nacional); segundo as estatísticas nacionais, sempre altamente polémicas, Portugal, Grécia, Espanha e Irlanda têm à volta de 20% de pobres. No Brasil, os números da pobreza (nas estatísticas da suspeita empresa financeira francesa Cetelem) revelam que 85 milhões de cidadãos vivem com recursos anuais de 127 “euros”. Entre favelas e sertão, certamente que os pobres serão muitos mais.

Todos os países citados são dirigidos por governos que, independentemente do naipe partidário democrático que possam invocar, desenvolvem as políticas do capitalismo neoliberal. Isto é, negam o papel do Estado como motor da economia, valorizam os interesses do capital privado e agravam incessantemente a exploração dos trabalhadores, quer a partir das leis do próprio Estado, quer assumindo incondicionalmente as exigências colocadas pelos grandes empresários. O resultado é o aprofundamento do fosso entre pobres e ricos, a estagnação das economias, o contínuo “apertar do cinto” das populações pobres, o agravamento do custo de vida, a liberalização dos despedimentos, a falência de milhares de pequenas e médias empresas e o recurso aos velhos pretextos patronais dos “défices públicos orçamentais” e dos “compromissos internacionais”. Tudo isto é gerador de miséria. E também gera riqueza se considerarmos a expressão no sentido, já referido, de “maior riqueza dos ricos”.

A União Europeia, por exemplo, reúne na Europa 30% do produto mundial, embora a sua população represente apenas 14%. Pelo contrário, segundo dados oficiais, o Continente Africano retém 1% da riqueza mundial, ainda que albergue 10% da população de todo o mundo. O fosso vai-se agravando incessantemente, apoiada nos inesgotáveis progressos do conhecimento tecnológico (que os ricos também controlam) e numa Europa cada vez mais distante dos níveis de desenvolvimento do terceiro-mundo. O que também acontece, mas em ordem inversa, em relação ao binómio Europa/EUA. É o “ranking” das nações. Os ricos serão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres. Porém, a fractura provocada pela ascensão do capitalismo não fica por aqui. Há ainda mais.

A riqueza global produzida não é distribuída equitativamente por todos os países da mesma totalidade geográfica (Europa, África, etc.) segundo as necessidades de desenvolvimento e de justiça social de cada estado. Os fortes recebem mais do que os fracos e as leis da comunidade são talhadas segundo os interesses dos mais ricos. A UE, tal como a União Africana ou os Estados Unidos tomam, como modelo a copiar, a empresa privada, o grupo económico a que a empresa pertence, a holding, o lóbi, o grupo de pressão ou as relações concorrenciais cotadas em Bolsa. O neoliberalismo não possui um quadro de valores permanente ou um projecto alternativo válido. Destrói e rapina. Gera a pobreza e concentra as fortunas. Se não for derrotado, construirá palácios de sonho à beira dos desertos globais.

Mas a derrota final está fora das perspectivas dos banqueiros. Será esse, talvez, o seu maior erro de análise. Contra tudo o que afirmam, são insensíveis à moral e a sentimentos de solidariedade humana. Para eles, os pobres não contam, são simples peças do “puzzle”. “ Os ganhos da globalização têm um preço “, limitam-se a comentar cinicamente.

Pobreza e riqueza em Portugal

Em Portugal, a promoção do “mercado da pobreza” tem uma estrutura montada que coincide, ponto por ponto, com o esquema de intervenção do “combate à pobreza”. Num e noutro campo, os agentes são os mesmos: a banca e os grupos capitalistas, a Igreja e o Estado.

Nos últimos cinco anos (a acreditar-se na visão optimista da estatística oficial) os dez maiores grupos portugueses de empresas da indústria e da banca registaram lucros consolidados de cerca de cinco mil e quinhentos milhões de “euros”, isto é, essas 10 empresas geraram um crescimento de +122% nos seus resultados financeiros, enquanto que, no mesmo período, o PIB nacional apenas conseguia um modesto registo de +14,7% (a distribuir pelos referidos 5 anos), portanto, oito vezes inferior ao que foi produzido pelas citadas 10 empresas privadas. Se tivermos somente em atenção os resultados dos 4 bancos que integraram esse “pelotão da frente” (CGD, BCP, BES e BPI), veremos que só à sua parte o crescimento somou 72,5%. Foi neste período que os governos de direita do PS e do CDS desenvolveram as suas teses do “apertar o cinto por causa do défice público” e avançaram políticas de desmembramento do Serviço Nacional de Saúde, de redução de âmbito da Segurança Social, da venda a privados das dívidas do Estado e de um sector crescente do património nacional, da progressiva liberalização dos despedimento e do estabelecimento das bases de um Estado centralizado e autoritário. O país serve, na perspectiva dos governantes, para financiar os projectos de uma élite do sector privado.

Mas serão apenas dez os grupos protegidos pelo Estado português? Poderemos confiar em que os resultados apontados são reais e fidedignos? Serão estes e outros grupos tão “nacionais” quanto o proclamam? Os lucros por elas gerados virão a ser, em grande parte, reinvestidos nas áreas reprodutivas da economia portuguesa ? Certamente que não. A rede de globalização de interesses entre os cumes da pirâmide capitalista mundial é um facto consumado. Cada um dos grandes grupos de empresas do sistema neoliberal funciona como “ponta de lança” de vastos impérios mundiais.

Regressemos ao expediente do exemplo.

Todos estamos recordados das peripécias da recente telenovela OPA no BCP. Diz-se, agora, que foi uma aventura insensata que causou danos no banco de Jardim Gonçalves. Guardemos, no entanto, as nossas lágrimas para outra ocasião. Em Agosto último, já depois da OPA ser retirada, o BCP registou lucros de 308 milhões de euros, apenas num semestre. Porém, mais importante que os lucros arrecadados, foi o aumento de influência registada, no interior do Millenium, pela ascensão de grandes accionistas, como o próprio BPI que motivou a OPA, a mutualista e caritativa “La Caja“, os bancos associados ao Microcrédito (do “combate à pobreza”), o piedoso império de João Rendeiro - tudo isto associado à venda maciça de enormes lotes de acções dos pequenos accionistas aos verdadeiros detentores do poder de decisão do banco. Como se sabe, o BCP nasceu do Banco Popular Espanhol e, o Espanhol, da nebulosa Opus Dei. “La Caja” é fruto dos capitais da pequena e média burguesia espanhola controlada pela igreja. O BPI tem um presidente ligado à Obra do padre Escrivá e uma administração que afina pelo mesmo tom. João Rendeiro é o banqueiro que joga nas Opas e nas eólicas e se declara, ao mesmo tempo, campeão do “ combate à pobreza”. Mal tinham começado a esfriar as cinzas da malograda Opa no BCP eis que vamos encontrar esta alegre confraria envolta num grande negócio lá longe, em Itália. A rede “Popular” fundiu dois dos seus bancos (Popolare Italiana e Verona i Novara), criando assim o quarto maior banco italiano em capital bolsista e a terceira maior força em carteiras de crédito. O negócio revelou uma constelação de outras operações com vistas à fusão de capitais e envolvendo nomes bem conhecidos dos cardeais do Vaticano, como o banco HVB, a Banca Nazionale di Lavoro, o Banco Bilbao y Vizcaia Argentaria, o Paribas, a Sanpaolo, a ABN Amro e ainda outras que seria cansativo enumerar. Todos são amigos de peito do BPI e do Millenium BCP.

Simultaneamente, noutras paragens, o Bilbao Y Vizcaia Argentária, da igreja espanhola, comprava a totalidade do capital do quarto maior banco dos EUA, o Capital Compass Bancshares, avaliado em 7.400 milhões de euros. O BBVA, que tem nos Estados Unidos quatro bancos seus, já anunciou a sua próxima fusão, o que tornará o grupo espanhol na 20ª força bancária norte americana.

Assim vai a “ igreja dos pobres “ e a vocação apostólica do “ combate à pobreza “.

Por cá, como país pobre que somos e seremos, as coisas ganham menor peso financeiro mas são, igualmente, esclarecedoras. “La Caja” já tem 25% do BPI. “É normal que queira mais...”, declarou Horácio Roque. Estrategicamente, está ligada à Allianz (capitais eclesiásticos) que detém 8,82% do BPI. Este esquema dominante foi montado a partir da venda que António Champalimaud fez ao Santander (igreja espanhola), no ano 2000, do grupo Mundial Confiança que incluía o Totta & Açores, o Crédito Predial e o Banco Sotto Mayor. Estes dados são importantes de recordar agora, quando aparentemente houve uma cisão no BCP e o administrador demissionário entrou imediatamente para o Grupo Champalimaud; quando “La Caja”, grande accionista do BCP que (segundo a versão oficial) derrotou a Opa do BPI, é já patrão dos capitais do banco derrotado; e quando os dois outros grandes accionistas do BPI (Itaú e Allianz) também integram a esfera financeira do Vaticano, é nítido que se prepara a fusão das instituições ibéricas de capitais eclesiásticos e a criação de um punhado todo-poderoso de superbancos.

O quadro completa-se com o “combate à pobreza” que é a outra face da mesma moeda. Na área social, os pobres resmungam mas pode vir o dia em que o sussurro se transforme em grito atroador. É vital que não se chegue a esse ponto.

Por isso, surgem como cogumelos as Fundações milionárias humanitárias, que só reclamam “pequenas” contrapartidas. Champalimaud e os Mellos cobiçam a área da Saúde. O Aga Khan quer as creches, os lares de idosos, a educação dos pobres, o trabalho entre os emigrantes e a eliminação das barracas. Paga a pronto e em contado. Bill Gates e a sua Internet reclamam o sector do ensino profissional, com a garantia de que formarão os quadros especializados que faltam à economia, sobretudo ao comércio e aos serviços. Por isso, transformam os ministros de Sócrates em caixeiros-viajantes que fazem a venda, a preços módicos, de telemóveis e computadores. Assim combaterão a pobreza.

Já as misericórdias fazem negócios lucrativos com as listas de espera, os hospitais de retaguarda, as lotarias, o imobiliário, a construção civil, o turismo, os subsídios principescos. Também elas procuram encabeçar a “sociedade civil” e a “luta contra a pobreza”. O Estado, porém, deverá primeiro reconhecê-las como seu par e ceder-lhes 50% do seu poder político que a Constituição lhe atribui. É uma posição de força que a realidade portuguesa justifica.

Porque, em Portugal, o Vaticano não quer isto ou aquilo.

Quer tudo!...

 Recebido por e-mail!

publicado por Elsita às 13:37
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1 comentário:
De zé (do beco) a 4 de Janeiro de 2008 às 16:10
Aqui está uma boa resposta aos discursos hipócritas de Fim de Ano.

Mas afinal como é que se chama este blogue?
Ainda não tiveste tempo de o baptizar?
Beijinho.


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